quinta-feira, 8 de setembro de 2011

Erros em inquéritos vão ser investigados


Rio de Janeiro

A Corregedoria Geral do Ministério Público do Rio de Janeiro vai analisar se houve erros nos pedidos de arquivamento de casos de homicídio no estado. A medida, anunciada ontem pelo procurador-geral de Justiça, Cláudio Lopes, poderá resultar na abertura de procedimentos administrativos disciplinares contra os promotores responsáveis.
  
Em reportagem publicada domingo, O GLOBO mostrou que o MP fluminense arquivou, em apenas quatro meses, 6.447 inquéritos de homicídios abertos até 2007. Esse montante representa 96% dos casos analisados pelos promotores, de abril a julho, para cumprir a Meta 2, determinação do Conselho Nacional do Ministério Público (CNMP) para concluir até dezembro todos os inquéritos antigos.
  
Na pressa de cumprir a meta, alguns promotores encerraram investigações que nem sequer haviam começado, cometeram erros claros ou ignoraram provas, optando pelo arquivamento. Do acervo de investigações antigas analisadas até julho, o MF fluminense ofereceu denúncia em apenas 3% dos casos.
  
- Infelizmente, essa é a realidade. Para os promotores, não há muito o que fazer em investigações que começaram mal. Passados tantos anos, é quase impossível chegar aos responsáveis. A tendência é o arquivamento - admitiu Lopes.
  
O procurador-geral da República, Roberto Gurgel, defendeu ontem que o MP-RJ apure supostos abusos no arquivamento em massa. Para ele, é inacreditável que promotores tenham sugerido o fim das investigações mesmo sem ler peças importantes do inquérito:
  
- Se alguém incorreu em desvio de conduta, os mecanismos de controle atuarão, sem dúvida.
  
A depender do resultado da apuração da Corregedoria do MP fluminense, o caso poderá ser levado ao Conselho Nacional do Ministério Público (CNMP), presidido por Gurgel. Porém, mesmo antes da conclusão da investigação no Rio, ele disse que o conselho buscará informações sobre os arquivamentos.
  
- É um índice de arquivamento que, de fato, chama a atenção. Mas temos que obter informações junto ao Ministério Público do Rio para ver o que ocorreu - alegou.
  
Tia de vítima pagou passagem de policial
  
Como o Estado do Rio ainda tem 40 mil investigações de homicídios em aberto, a maior taxa do Brasil, a opção pelo arquivamento deverá crescer nos próximos meses, para frustração de pessoas como a aposentada Celeste Barros Monteiro, que perdeu o sobrinho, o advogado Márcio Antônio de Carvalho, morto a tiros em Botafogo, em agosto de 1991.
  
- Fiz de tudo para não deixar impune o que fizeram com meu sobrinho, a ponto de pagar a passagem do policial responsável pelo caso, para que ele fizesse as diligências, mas o caso deu em nada - lamentou.
  
Márcio, aos 25 anos, morreu com dois tiros quando caminhava pela Rua Muniz Barreto em direção ao ponto de ônibus. Como ele acabava de sair de uma agência bancária, os agentes sustentaram na época que ele fora vítima de um assalto. Mas Celeste nunca acreditou:

 - Ele era procurador da UFRJ e tinha prestado um depoimento, no dia anterior, a uma comissão de sindicância. Márcio também não aceitava que o alojamento estudantil da universidade fosse assediado por traficantes. Tudo isso foi desprezado pela polícia.
  
Do total de antigos inquéritos, 25 mil se encontram atualmente no Centro Integrado de Apuração Criminal (Ciac), criado pelo MP fluminense para uma última tentativa de buscar os responsáveis pelos crimes cometidos no Grande Rio até 2007. Embora a experiência junte promotores e policiais numa inédita parceria, a taxa de denúncias gerada pelo programa é de 1%.
  
Apesar do percentual, o modelo inova ao estabelecer um canal direto entre investigadores, promotores e os órgãos periciais, a começar pelos gestores, o procurador de Justiça Rogério Scantamburlo e o delegado Milton Olivier, que trabalham lado a lado, livres da burocracia.
  
Ao comentar os arquivamentos em massa, o ministro Marco Aurélio Mello, do Supremo Tribunal Federal (STF), disse não acreditar que promotores tenham cometido crime, mas considera o problema impactante e nocivo para a sociedade. Afirmou que o homicídio é o crime mais grave capitulado no Código Penal e, por isso, não pode ser deixado sem solução antes de uma investigação rigorosa e exaustiva. Para o ministro, as investigações merecem o mesmo rigor, não importando se vítimas são ricas ou pobres.
  
- O inquérito não pode ter capa. Tem que ter conteúdo. Não se pode levar ao arquivamento só pelo fato de a vítima ser pobre. O Ministério Público atua em nome da sociedade - disse Marco Aurélio.
  
O presidente do Superior Tribunal de Justiça, Ari Pargendler, disse que não conhece o caso específico dos arquivamentos no Rio, mas ainda assim considera inaceitável o número de assassinatos não esclarecidos. Para o ministro, um país em ascensão como o Brasil não pode conviver com esse tipo de problema:
  
- É muito grave. Não podemos ter uma democracia onde o ordenamento jurídico não é respeitado. E a vida é o bem maior.
Fonte: O Globo




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