No final de maio, o Conselho de Direitos Humanos da ONU sugeriu a
extinção da Polícia Militar no Brasil. Com isso, um tema emerge: é
possível garantir a segurança da população sem o recurso à violência
militar? Entendemos que sim.
No entanto, para que isso aconteça é preciso desnaturalizar o discurso
populista de direita a respeito das "classes perigosas" que credita a
violência à população pobre das cidades.
Antes de tudo, devemos reconhecer que a violência urbana é uma questão
de ordem socioeconômica. Exatamente por isso, para combatermos a
criminalidade a contento é necessário uma abordagem que priorize o
desenvolvimento de políticas sociais capazes de enfrentar a pobreza e a
degradação social.
Mas, como vimos recentemente no Pinheirinho, na cracolândia ou na USP, o
Estado brasileiro sustenta há décadas uma política de militarização dos
conflitos sociais.
As razões para isso deitam raízes profundas em nossa história recente: o
modelo policial brasileiro foi estruturado durante a ditadura militar
se apoiando na ideologia da segurança nacional.
O núcleo racional dessa doutrina, vale lembrar, afirmava que o principal
inimigo do Estado encontrava-se no interior das fronteiras brasileiras.
Rapidamente, o inimigo interno se confundiu com a própria população
pobre do país.
O decreto-lei 667, de 2 de julho de 1969, atribuiu ao Ministério do
Exército o controle e a coordenação das polícias militares por
intermédio do Estado-Maior do Exército. O comando geral das polícias
militares passou a ser exercido por oficiais superiores do Exército
subordinados, hierárquica e operacionalmente, ao Estado-Maior do
Exército.
Os policiais militares se submeteram então a uma Justiça especial, muito
rigorosa quando se trata de infrações disciplinares, mas absolutamente
condescendente com os crimes contra a população.
A despeito da redemocratização da década de 1980, a estrutura policial
continuou a mesma, ou seja, prioritariamente orientada para a defesa
daqueles interesses classistas que deram origem à ditadura.
Na verdade, uma polícia criada para o enfrentamento bélico não pode
promover senão a violência sistemática contra os setores mais explorados
e dominados dos trabalhadores brasileiros: a população pauperizada, os
negros, os homossexuais e toda sorte de excluídos.
Enquanto dez cidadãos em cada cem mil habitantes tombam vítimas da
violência urbana no Alto dos Pinheiros (bairro nobre da região sudoeste
da cidade), 222 são mortos no Jardim Ângela (zona sul da cidade, próxima
ao Capão Redondo, considerada a terceira região mais violenta do
mundo).
Esse dado serve para derrubar a tese diligentemente construída por
setores conservadores da sociedade paulistana: a elite a maior vítima da
violência urbana.
O processo de redemocratização da sociedade brasileira trouxe para a
ordem do dia a questão da desmilitarização da polícia. Entendemos que,
igualmente, o corpo de bombeiros deveria ser parte de um sistema
articulado de defesa civil, recebendo um salário digno, uma formação
adequada e conquistando o direito à sindicalização.
Em suma, tanto a polícia quanto o Judiciário deveriam estar a serviço da
segurança das famílias trabalhadoras. Em vez de se balizarem pelo
arbítrio dos dominantes, deveriam prestar contas aos sindicatos, às
associações de moradores e às entidades de direitos humanos.
A desmilitarização da polícia é uma exigência democrática sem a qual, 25
anos depois, a sociedade brasileira ainda não terá superado a ditadura.
RUY BRAGA, 40, doutor em ciências sociais pela Unicamp, é professor de sociologia da USP e ANA LUIZA FIGUEIREDO, 43, é diretora da Federação Nacional do Judiciário Federal e Ministério Público da União (Fenajufe).
Fonte: Folha de São Paulo
concordo com modificações no judiciário que além do que foi salientado também é pouco produtivo, concordo também com a desmilitarização do corpo de bombeiros, mas.
ResponderExcluirA policia militar é imprecindível para a manutenção da ordem, o regime militar acabou a mais de 30 anos e não pode ser usado como explicação para o desmazelo do governo brasileiro atual, a pobreza e miséria não são exclusividade do Brasil portanto não explicam satisfatóriamente a violência no Brasil. E por fim as Nações Unidas é um órgão que foi facilmente manipulado, sendo a invasão do Iraque de 2002 o caso mais notório, não sendo idôneo ou totalmente confiável.